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A mostrar mensagens de janeiro, 2024

espectros

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  diz-se que lugares bagunçados atraem fantasmas: festa animada dos mortos em meio a faxina procrastinada. É possível ouvi-los tomando o resto do café de ontem, lambendo a colher do brigadeiro azedo, dançando com os vestidos jogados no sofá, ironizando a biografia do Stephen King largada no chão do quarto, se esfregando na toalha deixada em cima da cama, cantando beatles acompanhando a letra num encarte velho de cd arranhado. Se comunicando através de rangidos, portas batendo,  janelas trepidando..., por puro tédio. "Samaras", "Jasons", "Freddies", 'Chuckies" interfonam querendo participar.

ego = arma de destruição em massa

a - dúbio

  para as plantas não morrerem de tédio em seus minúsculos vasos-cubículos, sussurro tragédias gregas em detalhes. Logo, respondem em viço, aguardando o final de suplício de algum humano imprudente, que ousou igualar-se ao divino. "Estúpidos, eles sempre foram, mas ainda sou seu inquilino", pensa o cacto constrito em um espaço ridículo, enquanto ouve os tristes fins de heróis malditos.

dramado:

 é um gramado com dramas plantados que serve para ser pisoteado. Portanto, num dramado é bastante comum encontrar placas dizendo: "pise em toda parte"

Sou

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  empunha o verbo existir como uma arma e deixa teu dedo engatilhado toda vez que quiserem apagar-te. Atira esse verbo na cara de quem não te enxerga como tu és. Esfrega no peito do teu algoz esse infinitivo definitivo. Faça ele engolir o verbo, e engasgá-lo com a aspereza da tua existência. E em dias que te sentires em meia fase, qu ase transparente, transcende e grita: existo, apesar de!

"dica" aos jovens atores

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 semideuses não pagam conta de luz, pois já carregam luz própria. De fato, não pagam conta alguma, pois não se misturam com coisas mundanas, não se sujam com as merdas diárias. Semideuses andam nus, porque se bastam. Seus corpos são máquinas de amor e suas ideias incensadas. Semideuses querem musas élficas que chupem cana, masquem chicletes e falem a língua dos besouros. Semideuses cantam ópera chinesa. Semideuses dançam no céu, acima das nuvens  e mijam nos que consideram menores. Semideuses não organizam festas. Participam de eventos orgiásticos. Semideuses causam "semi- epifanias", pois são semi-deuses. Semideuses se aprofundam em poças d'água e tudo ao seu redor deve ser milimetricamente fora de série. E não. Semideuses não ensaiam, pois já estão em cena e suas presenças são insuperáveis. 

As receitas caseiras e seus segredos como manutenção da trajetória familiar

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  É bastante comum, em famílias espalhadas pelo país, celebrações tradicionais com encontros certos aos domingos e datas comemorativas marcantes, tais como o dia das mães. Mesas grandes ou pequenas, que sempre esperam a chegada de alguém que talvez nunca venha, mas, que terá seu lugar cativo, porque fez por merecê-lo. Os locais, escolhidos à dedo, priorizam o grau de “importância” ou de idade dos componentes convidados (incluindo primos distantes e agregados que ganharam função de familiar). Os penetras também são acolhidos com bancos improvisados e mais “água no feijão”. A fartura é oferecida sem culpa. E os menus são definitivamente, fragmentos da trajetória de cada pessoa unida por laços de parentescos, onde as receitas ganham status de tesouro, pois, levam em consideração o indivíduo e suas compreensões. Macarronada, frango assado, feijoada, arroz de forno, galinhada... uma sucessão de perfumes que recordam. Não é a toa que o senso comum afirme que o olfato é o mais mnemônico...

Os grandes lábios

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 é certo que a boca que fala, não é a mesma boca que beija e muito menos,  a mesma boca que envolve o falo e realiza seus desejos. Os lábios grossos são os primeiros da fila de interesses, os finos, portanto, devem se tornar grossos e, assim sendo, devidamente preenchidos. Ácido Hialurônico?! Ressalta-se que a dor é muito individual, podendo ser insuperável para umas, e mediana para outras, e até semelhantes a facadas profundas  somadas ao valor do "investimento" que retira grande quantia da receita  de uma trabalhadora mediana. Em sete dias quase não há mais dor e temos lábios próximos dos desejáveis, além de "suaves" prestações no crédito.  Mas, sempre podemos dar um "glow up", afinal de contas, a deusa Volúpia é insaciável.  São muitos recursos que "abraçam" diferentes classes sociais. Temos o gloss no valor de 11,99 (mais barato que uma lata de leite em pó. Quem precisa de leite?) que aumenta os lábios após alguns minutos de uso, enquanto o a...

a couve

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frigideira chiando. O azeite pede o alho. O perfume é um túnel que me transporta para tempos que nunca visitei. São mulheres, uma atrás da outra, enfileiradas na frente do vapor, como fotografias do meu passado, se movendo quase juntas em prol de uma receita de família. A ferramenta em suas mãos é a faca amolada na pedra. Cortam a couve fininha , fininha....sagradas folhas colhidas no terreiro...filhas da terra.  Jogam aos poucos os montinhos picados na panela pesada e vão misturando rápido com a colher de pau. Em seguida, o resto. Uma pitada de sal. Mais uma mexida. Gargalhadas. Silêncio.  Sussurram uma no ouvido da outra...  não ouço nada. Volto: minha couve cortada grosseiramente com faca de serra, já está em contato com o teflon arranhado e uns filetes tostados. Sal e.... um abismo...eu queria ter lido os lábios delas... mas, a minha visão está embaçada. Só ouço mágoas. O que eu sempre senti, é que a cozinha e o quintal são os lugares onde as poções mágicas acontecem,...

Erva daninha

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não se pode dizer que uma erva daninha seja fraca, ou insignificante. Nem ao menos podemos chamá-la de discreta. Ela nasce e quando menos se espera se alastra como peste, mato, espontânea, autoritária e selvagem.  Sanguinária, toma o vasto, o campo, o espaço que for. Coloniza. Ela existe e não pede licença. Algumas, inclusive, fingem status, lembram orquídeas raras, e até antúrios, mas continuam ordinárias. Outras se põem eloquentes e apresentam cores fortes, mas o perfume é de estrume,  e logo se apresentam extremamente inconvenientes. Um jardineiro, tal como Hércules, passa uma vida inteira tentando extraí-las, e como num looping eterno, jamais finaliza o trabalho inglório, pois são vertiginosas e rasteiras nossas anti-heroínas.  Mas, quando a escuridão cai, e o perigo não assombra,  podem refletir solitárias: quem teria sido a primeira pessoa que definiu as castas vegetais? Aquela que determinou: você é pasto e você é a mais singular flor do abismo?  Contudo,...