As receitas caseiras e seus segredos como manutenção da trajetória familiar


 

É bastante comum, em famílias espalhadas pelo país, celebrações tradicionais com encontros certos aos domingos e datas comemorativas marcantes, tais como o dia das mães.

Mesas grandes ou pequenas, que sempre esperam a chegada de alguém que talvez nunca venha, mas, que terá seu lugar cativo, porque fez por merecê-lo. Os locais, escolhidos à dedo, priorizam o grau de “importância” ou de idade dos componentes convidados (incluindo primos distantes e agregados que ganharam função de familiar). Os penetras também são acolhidos com bancos improvisados e mais “água no feijão”. A fartura é oferecida sem culpa. E os menus são definitivamente, fragmentos da trajetória de cada pessoa unida por laços de parentescos, onde as receitas ganham status de tesouro, pois, levam em consideração o indivíduo e suas compreensões.

Macarronada, frango assado, feijoada, arroz de forno, galinhada... uma sucessão de perfumes que recordam. Não é a toa que o senso comum afirme que o olfato é o mais mnemônico dos sentidos. E com ele sabe-se que vem o paladar. Embora pensemos nos dois sistemas sensoriais como separados e distintos, ambos estão intimamente ligados. Enquanto a língua reconhece apenas seis ou sete tipos de sabores diferentes, o nariz é capaz de perceber mais de dez mil diferentes odores, cada qual definido por uma estrutura química diferente. Desse modo, grande parte daquilo que identificamos como “gosto” é, essencialmente, aroma, ou seja, substâncias químicas suspensas no ar e solúveis em água ou gordura. Essa biologia toda colabora com as cozinheiras e cozinheiros autodidatas que foram obrigados à aprender o ofício da cozinha por necessidade, ou por pura manutenção de uma tradição familiar. Fora a parte prazerosa, que implica entregar-se ou não às sensações do corpo. Aos pecados da gula...

É o que se vê no filme “A Festa de Babette”. Uma misteriosa mulher francesa chamada Babette chega num vilarejo na Dinamarca, e se emprega como faxineira e cozinheira na casa de duas solteironas, filhas de um rigoroso pastor. Vivendo ali por quatorze anos, até que um dia fica sabendo que ganhou uma fortuna na loteria. Ao invés de voltar à França, ela pede permissão para preparar um autêntico jantar francês em comemoração ao centésimo aniversário do pastor. A princípio, os convidados ficam assustados, temendo ferir alguma lei divina, mas acabam comparecendo e se refestelando com os pratos proporcionados por Babette.

No entanto, antes de se renderem as iguarias uma das irmãs solteironas, tem um sonho ruim, sucumbe ao medo e passa a imaginar que o jantar francês oferecido por Babette será diabólico. Mas, essa fantasia só é fabricada, porque antes ela vê as caixas dos ingredientes secretos chegando em sigilo e tomadas por cuidados excessivos. Além de uma tartaruga agonizando, meio viva, meio morta e muitas codornas piando dentro de uma gaiola. Não é difícil imaginar por que.  As caixas encerram segredos, objetos frágeis, preciosos, temíveis... Podem proteger. Podem sufocar. Podem carregar nossa ruína. Enfim, não se deve abrir uma caixa impunemente. 

A estratégia usada pela pobre mulher, afim de que toda a comunidade seja protegida do pretenso mal, é alertá-los de que não sintam nem os aromas, nem os sabores, apenas pensem na salvação do espírito enquanto estiverem comendo. Todavia, tem-se à mesa, ocupando posto de honraria, um General que não recebeu orientações prévias sobre a comida, entregando-se desbragadamente aos sentidos e aos estados alterados do corpo.

O general é também um amor antigo dessa mesma mulher que não quer ser envolvida nas garras do diabo (aqui, peço licença para determinar que trata-se do sentido judaico, referindo-se à aquele que põe obstáculos). Homem sábio e vivido percebe que suas vitórias pessoais o afastaram do seu grande amor, mas, ainda assim suas escolhas devem ser tratadas com respeito e legitimidade, afinal, foi o melhor que ele pôde fazer quando era mais jovem. Trata-se de saber e saborear o que a vida propõe, sem mágoas, levando em consideração o amargor que às vezes prevalece diante dos outros sabores. Nesse sentido, fica cada vez mais clara a ligação entre saber e sabor (a mesma etimologia: saber do lat. Sapere “ter gosto” e sabor do lat. Sapore).

Daí em diante tem-se a figura do aprendiz: o escolhido para aprender o ofício, a arte e a manutenção das receitas familiares (do lat. Med. Manutentione “ação de segurar com a mão”).  Os sanguíneos tem primazia. O filme “O tempero da Vida” descreve muito bem essa prática.  Antepastos, temperos, prato principal e sobremesa são títulos dos capítulos da vida de um menino chamado Fanis Iakovidis que vive em Stambul sob os cuidados de uma família grande e animada, cujo avô é dono de uma loja de especiarias e o ensina de modo peculiar sobre culinária e astronomia (ele lhe diz que a palavra gastrônomo encerra dentro de si tanto a palavra gastronomia quanto a palavra astronomia). No decorrer da película, uma cena bastante ilustrativa, descreve a relação da tia (excelente cozinheira, mas, competitiva por natureza) que finge ser generosa com a sobrinha e passa o “segredo” de uma receita de charutos turcos, resultando em tragicomédia quando todos passam mal.

“O segredo é um privilégio do poder e um sinal de participação no poder. É igualmente ligado à ideia de tesouro e tem os seus guardiães. O segredo é também fonte de angústia pelo seu peso interior, tanto para aquele que o guarda quanto para aqueles que o temem.” (CHEVALIER 1998)

Percebe-se assim, que os mestres escolhem, na hora certa, seus aprendizes e às vezes, sem opção, são capazes de buscá-los fora de seus núcleos familiares.

O aluno será o detentor de segredos, temperos mágicos, menus roteirizados, cadernos de receitas com pedaços de massas cristalizadas, gotas transparentes de gordura e digitais de seus antepassados. Em alguns cadernos de receita é possível até mesmo ouvir o som das risadas e os tilintares dos talheres de nossos queridos.

Ao cozinheiro e mago restam os excessos e comedimentos no controle dos ingredientes, da paciência no preparo, bem como na belezura dos pratos. Vale até maçã em boca de porco. O mestre sabe que os alimentos modificam humores e nos fazem esquecer os modos. É voyeur : gosta de ver e ouvir o prazer de quem come com todo o corpo. Sabe fazer uma simples refeição tornar-se um rito de amor.

 

 

 

Referências.

BARTHES, Roland. Aula. São Paulo: Cultrix, 1996.

CHEVALIER, Jean. Dicionário de Símbolos. Rio de janeiro: José Olympio, 1982.

Filmes: Babettes gæstebud (A Festa de Babette). Dinamarca, 1987. Direção: Gabriel Axel;

Politiki kouzina/ A Touch Of Spice (O tempero da vida). Grécia/Turquia, 2003. Direção: Tassos Boulmetis;

Ratatouille (Ratatouille). EUA, 2007. Direção: Brad Bird e Jan Pinkava.

Sites: http://www.qmc.ufsc.br/qmcweb/artigos/quimiosensores.html, “Químio sensores, o corpo humano é uma central de analíse”. http://super.abril.com.br/religiao/sata-vive-442787.shtml

 

 

 

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