a couve
frigideira chiando. O azeite pede o alho. O perfume é um túnel que me transporta para tempos que nunca visitei. São mulheres, uma atrás da outra, enfileiradas na frente do vapor, como fotografias do meu passado, se movendo quase juntas em prol de uma receita de família. A ferramenta em suas mãos é a faca amolada na pedra. Cortam a couve fininha , fininha....sagradas folhas colhidas no terreiro...filhas da terra.
Jogam aos poucos os montinhos picados na panela pesada e vão misturando rápido com a colher de pau. Em seguida, o resto. Uma pitada de sal. Mais uma mexida. Gargalhadas. Silêncio. Sussurram uma no ouvido da outra... não ouço nada. Volto: minha couve cortada grosseiramente com faca de serra, já está em contato com o teflon arranhado e uns filetes tostados. Sal e.... um abismo...eu queria ter lido os lábios delas... mas, a minha visão está embaçada. Só ouço mágoas.
O que eu sempre senti, é que a cozinha e o quintal são os lugares onde as poções mágicas acontecem, onde os segredos são passados como um tesouro impedindo que uma receita preciosa caia no esquecimento. O trabalho de muitas vidas, as pitadas corretas, o tempero afiado, a experimentação, cadernos de receitas rasurado e carimbados com restos de farinha e molho de tomate... Quantas mãos, pitacos e intuições se misturaram antes daquele bocado de couve alcançar a boca de alguém?
Comentários
Enviar um comentário